sábado, 27 de agosto de 2016

DAS ANTIGAS De costas para o sertão

Fortaleza é o avesso do avesso... E já declarei aqui, mais de uma dezenas de vezes, amor roxo por ela. Mas há algo que atrapalha esse bem querer e, às vezes, tenho vontade de ir com o vento.

Não voar de vez. Não aguentaria. Tenho saudades, aqui, mesmo antes de pegar o beco. Provavelmente ficar indo e vindo. Sentir falta de seu colo, de seu cheiro de mar, das partes salgadas porque tanto fico. 

Do vento à sombra, mesmo faltante de mais árvores e de parques que não querem deixar existir. 

Toda vida que testemunho lugares onde as pessoas gostam dos rios, onde ninguém joga lixo na rua e todo mundo tem uma casa pra morar, há uma ponta de flecha que me envenena de inveja.

Aqui não seria assim por qual trauma ancestral ou traço do colonizador? 

Mas jogar a culpa, sempre, no passado não é honesto. E por que, então, não muda essa pinoia? 

Maçada sem fim. 

A última desse rosário de avessos, que não compreendo, é Fortaleza achar que a seca não é com ela.

Cinco anos encarrilhados de estiagem, um colapso d’água na torneira do condomínio de luxo ou na cacimba do quintal e a maior parte de nós nem aí.

Até parece que não nascemos dos bois dos sertões ou das serras carregadas de jumentos e caçuás de bananas na palha. Que quase todo fortalezense tem um pé no Semiárido.

Que ninguém teve uma avó, um vô, uma tia vitalina, um português que se casou com uma suposta índia lá nos 1800, nos 1900 nas terras do fim do mundo. Ou foi bisneto de uma bisavó que fugiu, novinha dos matos, pra se casar com um acendedor de lampião de Fortaleza...

Pois tiveram. Mas em algum momento lugar do passado (e do futuro) disseram para os meninos e meninas que éramos feitos só de Fortaleza.

Nem me lembro da aula de Geografia sobre a origem da água que bebíamos; e cozinhávamos o ovo na leiteira. Acho que nunca teve, apesar de sempre ter existido seca. Mais do que chuva, mais do que bicas de brincar de lavar a pinta e a baratinha.

Pois vai faltar água. Mesmo que o governo (atrasado) diga que não. E mesmo que chova em 2017, só um dilúvio enche o Castanhão, o Orós, o Banabuiú, o Pedras Brancas, o Araras, o Pentecoste, o Trussu, o Jaibaras, o Fogareiro, o Canafístola, Mal Cozinhando, o Jenipapeiro, o Arneiróz, o Brôco, o Caldeirões, o Favelas, o Canoas, o Forquilhas, Muquém...

A Seca já matou os peixes...

DEMITRI TÚLIO é repórter especial e cronista do O POVO demitri@opovo.com.br

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